Noite sem luz

Setembro 30, 2019

Chegou a sua casinha de adobe que em abono da verdade era muito mais digna do que os casebres da vizinhança de que se acostumaram a chamar de casas. Não havia luz nem nos arredores. As trevas engoliram tudo. Sentiu a pressão da escuridão sobre a alma. Saiu para ver lá longe as luzes da subestação mais próxima – a de Musseque Kapary – cuja energia não se sabe quem consome. No lugar da depressão causada por tamanha pobreza cresceu uma montanha de revolta. Uma revolta condenada a não pegar em armas! Lutar?! P’ra quê? P’ra que lutar quando já se sabe o desfecho? Ganham sempre! Ganharam todas as guerras! Ganharam também todas as eleições! Deixem-lhes espoliar-nos. Merecem. A nossa pobreza é o indicador da riqueza deles!Perdemos as guerras das armas mas não das ideias! Ah, pois é… Este é o consolo! Que adianta ter razão e não ter força?!Nossos antepassados tinham razão porquê as terras eram deles, mas como as suas armas eram fracas perderam as terras por fim a soberania e com ela a dignidade.A vitória das armas é tão preciosa que os teus inimigos depois conseguem fazer-te odiado pelos ex-seguidores e não raras vezes até os próprios filhos biológicos! Não me peçam exemplos porque podem encontrá-los nos anais de todos os povos do mundo. Antes de recuar no tempo e buscar no baú da memória os encantos da noite no tempo em que os tios ainda contavam histórias de makixi a volta da fogueira, a única fonte de luz artificial que até então conhecia, lá na distante terra natal, os seus olhos passaram pela casa do Senhor Paulino, o pai do Ismael Mateus onde havia a luz de um gerador. No Kabungu também havia algumas casotas de adobe iluminadas por geradores. Depois pela casa do tio Sanga, o fundador da área, mas como estava mergulhada na negrura da noite não puderam pousar, indo para os ninhos – um aglomerado de casebres de barro e capim do sobrinho do tio Sanga onde havia uma labareda avermelhada em luta com o vento que vinha das bandas da Ibendua.É interessante notar que de lá para cá não mudou nada!O quê?Nada!Como nada?Não quis admitir que estava a falar sozinho. Ele é do tempo que se dizia que quem fala sozinho é ou está a ficar maluco! Mas parece que agora descobriram que quem fala sozinho é génio!Ah, não liga estou a lembrar a minha infância… Temíamos a noite mas era sem dúvida o período mais agradável sobretudo quando os pais se juntassem numa casa onde tínhamos amigos para o sarau. A noite não é como o dia em que as pessoas têm que ir trabalhar ou estudar e naturalmente isto era fantástico para nós as crianças…Como todo intelectual pobre pegou na caneta, qual caneta, no telemóvel e derramou no aparelhozinho algumas notas sobre a angústia de não poder ter um lugar decente para viver. Não imaginam sequer a humilhação que brota de, por vergonha, não se puder receber em casa nem mesmo parentes.Acendeu uma fogueira de capim porque nem lenha havia nas suas terras comunitárias. A ideia era fazer um compasso de espera até chegar a Lua, mas o fogo consumiu em minutos a palha secada pelo Sol abrasador do Caxito. Afinal era tempo de a Lua tal como a subestação do Musseque Kapary demorar a dar a sua luz.A noite é sagrada porque nela se fazem as coisas mais sagradas da vida: amor, filhos e dormir. Já imaginou se não houvesse noite! Como é que recuperaríamos da fadiga dos esforços do dia?! Não é por acaso que se atribuem poderes especiais (mágicos) aos animais nocturnos. Os antigos diziam que a noite é só para fazer filhos!Ai é? De dia também pode-se fazer estas coisas?!Tens razão, mas quem são os que fazem estas coisas de dia?! Senão os que não trabalham ou os que estão de férias!Bem não é forçosamente assim, mas a intenção (de desencorajar o hábito de fazer estas coisas sobretudo dormir de dia) foi percebida.Só Deus e os próprios pobres sabem o quanto é estressante viver tanta gente, entre filhos sobrinhos e primos em tão reduzido espaço, e quando a noite chega é um show. Debaixo da mesa se torna quarto, os cadeirões (quando existem) se tornam camas, enfim é a balbúrdia, um grande atentado a qualidade de vida e privacidade. As velas e candeeiros de gasóleo porque hoje em dia não sei porque carga d’água o petróleo iluminante já quase não existe são as alternativas dos excluídos.


Maratonas: lixo moral mais espalhado em Angola

Setembro 30, 2019

Caxito, 22 de setembro de 2019.

Era sexta-feira. A luz do sol ainda não tinha acabado de apagar, já o “DJ do Kimbo” preparava as condições para mais uma farra de fim-de-semana. Há anos que tem sido assim. Desde que o DJ Kafrique veio de Luanda que os idosos da aldeia não dormem sossegados.Os amigos abandonaram a última aula para ajudar o Kafrique a montar as colunas e a “rede” de iluminação do recinto.Os carros que passavam ainda não tinham as luzes acesas, só as mulheres e meninas que vendiam legumes nas duas pequenas praças junto a estrada corriam de cima para baixo conforme os carros paravam mais acima ou abaixo cada uma tentando vender, couve, tomate, rama de batata, enfim, num claro sinal de que o dia estava a chegar ao fim. Os automobilistas tinham que baixar ligeiramente os vidros para não virem sua privacidade invadida por duas ou mais mãos de ambos lados da viatura esfregando os produtos na cara de quem baixasse o vidro além de metade do percurso.- Eh, filho nós aqui esses dias quando chega sexta-feira… as vezes, mesmo no meio da semana é assim!.. Que é?!.. Quem vai falar him. Qual coordenador qual quê? Aqui não há quem fala him. Você fala lá para ver que vai te acontecer… São mesmo nossos filhos, mas te ouvem?! Não te ouvem.Entretanto um grupo de raparigas se aproximava ao recinto da dança. Eh! Estás a ver as mulheres deles!.. Estão a vir aí.Mas estas são crianças.Quê? O mano está ver criança aí?! Estas aí são mães. Hoje em dia nesse país criança é só que tem 5 anos (risos).Ai é?Ah, pois! É no nosso tempo que uma mulher de 20 anos se ainda não “migou” não sabia se homem é como?!. hoje… Outra vez risos… Essa peste das maratonas estragou mesmo o país. A minha irmã que anda muito a procura de negócio disse que lá onde vai também é mesmo assim. Há sanzalas que até não tem escola nem Igreja mas tem aparelhagem!Quem começou com isto?! Eu também não sei. Mas parece que são as maratonas do partido que começaram com isto, não é mano?.. É mesmo – continuou! Mas isto não é coisa boa. Os nossos filhos até fogem da escola para ir nessas festas. Nesse dia, no dia da festa as meninas já não fazem jantar. As mães é que fazem! Dizem mesmo que eu não tenho marido nem filhos nessa casa…Mas, olha que as igrejas também estão bem espalhadas en! Sim tem razão há mesmo também muitas igrejas, mas não fazem barulho e as que fazem, fazem de dia e se é a noite é só para umas horas. Agora essas farras começam sexta-feira a noite até segunda de manhã! E não é só aqui. Todas as bwalas. Aqui, Kabungu, Ibendua, Seteka, Sungui, todo lado. É só você vir aqui a noite vai encontrar as sanzalas estão a ferver de barulho! O governo tem que fazer mesmo alguma coisa se não todos os velhos vão morrer de tensão alta! Os velhos estavam a fugir o barulho das cidades para os matos, mas agora assim vamos fazer como?! O governo tem que pôr mão nisso! O interlocutor afastou-se ligeiramente porque enquanto falavam a senhora vestida de “bessa ngana” com uma tira preta na manga do kimomi simbolizando luto foi se aproximando reduzindo a distância entre si a escassos 15 cm…Mana Teresa! Olha a hora! Já vou, stó só ainda a atender esse moço que está a me fazer perguntas sobre a nossa terra!..Filho, esta terra é uma grande terra! Esta Igreja aí, apontando com o dedo é a mais antiga de Angola – mentiu! Onde baptizaram a Dona Ana de Sousa.Quem? D. Ana de Sousa, Rainha Nzing´eeeh!Anh, afinal?!Sim. O menino não sabe isso? Esses dias na escola já não estudam história? – Acrescentou.Percebeu que a pergunta não era propriamente para si, mas para o sistema do ensino.Estuda-se!Então como é que não sabes isso?!.Esta é a terra do Jacaré bangão! Ou também não sabes?A conversa estava já a ficar um pouco aborrecida. Mas ainda não tinha encontrado momento ideal p’ra terminá-la.Mana Tereeeesa!Chamou a atenção outra mulher vestida de luto que estava parada à uns 10 metros. Parecia 2 ou 3 anos mais nova, mas obviamente a cercar os 70 anos.Eua filho tenho que ir temos missa de sétimo dia. O padre já chegou! – rematou Mas estás a ver filho. Essa Terra só está assim porque os grandes que nasceram aqui mandaram lixar! O Bonga é daqui. Os Dias dos Santos – esses Dino Matross, Nandó e outros- são daqui. Mesmo o Agostinho Neto também é ‘mbora mesmo daqui!.. Então, Catete, Cabiri, Funda e Porto Kipiri, Dande, aqui é Dande, não é o mesmo povo? Mas a mãe assim está a falar já política! Oh, meu filho hoje em dia ninguém mais tem medo. Esses nos enganaram. O Savimbi que estávamos a pensar que era o bandido afinal «homem alheio» tinha ‘mbora razão dele! Aha, nun ‘stá ver a cara que os miúdos estão a pôr nos hiaces?! Ah, pois é, jikul’ omesso!

Serafim Quintino