Breve biografia do Rev. Octávio Fernando

Rev. Octávio  Fernando

Rev. Octávio Fernando

DADOS PESSOAIS

Octávio Fernando nasceu na Kilenda (da etnia kimbundu), Província do Kwanza Sul, Angola; aos 14 de março de 1951. Filho de Fernando Mulemba, Soba da Comuna do Kirimbo e de Miquelina Sabão, doméstica. Casou-se com a Sra. Carolina Guia (em 1977), com quem teve 6 filhos sendo 3 rapazes e 3 meninas, porém teve 1 menina antes do casamento. Foi consagrado em 1984 pela Igreja Cristã Evangélica de Angola.

EDUCAÇÃO

Depois de ter feito os três níveis do ensino de base nas escolas: Marques Seixas (Capir), em 1968; Liceu Salvador Correia (Luanda) em 1977 e Liceu N´gola Kiluanji (Luanda) em 1979; fez o curso Médio de Administração e Gestão de Empresas no Instituto Karl-Marx-Makarenko (Luanda) .
Posteriormente já como secretário-geral da AEA fez uma licenciatura em teologia pelo Instituto Superior de Teologia do Lubango (ISTEL) e mestrado em Missiologia pelo Centro Evangélico de Missões (CEM) de Viçosa, Brasil . Matriculou-se ainda no curso de Sociologia no Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED) da Universidade Agostinho Neto (UAN).
Portanto era uma pessoa que se preocupava com o conhecimento.
Participou em muitas conferências internacionais relacionadas com o seu trabalho na AEA, das quais destacam-se as conferência de Fogo, Zimbabwe (1986); da Aliança Evangélica Mundial, Singapura (1986) e Lausane II, Manila (1989), Pan-africana de Líderes Cristãos, PACLAII), Quénia (1994); Consulta Global de Evangelização, Coreia do Sul (1995) – vide curriculae vitae em anexo – que certamente acrescentaram «ferramentas» a sua «mala intelectual» .

TRABALHO

Antes de tornar-se pastor e secretário-geral da AEA função que exerceu até o dia em que se manifestou a doença que, como já foi dito acima, levou-lhe a morte cinco anos depois; trabalhou nas seguintes instituições: BBCI/BNA (1975-1984), Parque Alto do Quartel General do Exército Português (1974-1975) e Conselho Administrativo da Kilenda (1969 – 1972) .
Foi eleito secretário-geral da AEA, um pouco a contra gosto da direcção da sua igreja, a ICEA, aos 33 anos de idade, na assembleia anual, que decorreu entre 30 de Outubro e 4 de Novembro de 1984. Começou a trabalhar em Janeiro de 1985 . Tendo ficado no cargo
O seu antecessor foi o Pr. David Nkosi, ainda não foi possível saber exactamente quando é que o Pr. David Nkosi assumiu a liderança executiva da AEA, nem quando deixou-a! Porém tudo indica que terá ficado no cargo cerca de 4 anos (até 1983) deixando o cargo vago por um ano por conta de muitas dificuldades: “o meu antecessor é um bom líder […] houve dificuldades com a antiga administração, [por isso] a AEA simplesmente dispensou-a. Infelizmente quando cheguei para a AEA, há dez anos atrás não encontrei quase ninguém, e não havia mesmo alguém que me passasse as pastas e dissesse senta-te aqui, isto faz-se assim.” .
O Pr. Eliseu Simeão, nas vestes de Presidente da AEA, emitiu, a partir de Kalunguembe, aos 22 de Agosto de 1981, uma circular a propósito do adiamento de uma assembleia anual que teria tido lugar na Gabela, entre 12 e 16 de Agosto de 1981, onde deixa claro – sem entrar em pormenores – que a organização tinha dificuldades: “ Esta circular tem por fim pôr – vos ao corrente de certas coisas. A primeira é que à última da hora tivemos que cancelar a nossa assembleia anual da Gabela. Foi por motivos alheios à nossa vontade que o fizemos, pelo que vimos pedir muitas desculpas. Na altura o abaixo-assinado encontrou-se com alguns irmãos da União das Igrejas (Lubango) e com eles marcámos uma nova data para esta reunião que teve que ser adiada. A data sugerida é a de 18 à 22 de Novembro [de 1981] no Lubango. Depois o nosso secretário dará pormenores sobre a reunião na devida altura…”.
No dia 29 de Setembro de 1981, o Pr. David Nkosi, envia uma circular que dizia: “ não tendo sido possível a realização da assembleia-geral da A.E.A que devia ter lugar na Gabela […] devido [a] motivos que já foram esclarecidos pelo Pastor Eliseu Simeão nosso Presidente na carta que fez circular e que de certo recebeste” […].
Portanto como o caro leitor pode ver, por essas fontes, as únicas que tivemos acesso, até agora, não podemos satisfazer a sua natural curiosidade de saber as razões (chamadas dificuldades) que levaram a AEA a dispensar a administração do Pr. David Nkosi nem do adiamento e mudança do local da assembleia anual de 1981.
De tudo que foi dito até aqui um terceiro aspecto que chama a atenção é o facto de o Pr. Octávio Fernando ter assumido a liderança executiva da AEA, aos 33 anos de idade.
Um jovem assumir a direcção de uma organização de âmbito nacional «cheia» de dificuldades, causa admiração, porém, saber que fê-lo em troca de um emprego num banco, como “funcionário de carreira”, causa «choque».
Deixar um emprego sem sombras de dúvidas muito mais bem remunerado e promissor para ocupar o cargo de secretário-geral de uma instituição que praticamente só existia no papel é no mínimo uma manifestação de loucura. A missionária (brasileira) Antónia Leonora van der Meer, mais conhecida por irmã Tonica, que trabalhou com o Pr. Octávio logo no início do seu mandato, no seu livro: “Eu, um missionário?”, ao falar sobre as condições de trabalho que existiam na época, disse, eu cito: “Em 1984 o escritório contava apenas com [um] office-boy. Em 1985, com o Pr. Octávio Fernando, que entendeu o convite para o cargo de secretário-geral como chamado de Deus, o irmão Daniel Inácio, motorista e responsável por relações públicas, e a irmã Mingota, telefonista e recepcionista. Eu me tornei secretária do Pr. Octávio. Escrevia as cartas dele, fazia os boletins da AEA, organizava o arquivo e era tradutora, tanto de visitas estrangeiras e correspondências internacionais, como de alguns textos que eram de interesse da equipa. O escritório era minúsculo. E o ministério começou a crescer naquele lugar apertado, que nem era propriedade da AEA. Quando Daniel voltou para o sul de Angola com sua família, o irmão Marcos Venâncio Lucamba, da IEPA (Igreja Evangélica Pentecostal de Angola), veio substituí-lo. Marcos era fiel e dedicado, crendo que seu trabalho era um chamado de Deus.” , fim de citação. Dois anos depois (em 1987), a irmã Márcia (Brasileira) juntou-se a equipa. “Com o dom de relações públicas, [estou a citar outra vez a irmã Tonica, a irmã Márcia] fez amizade até com o Director de Assuntos Religiosos, que costumava mostrar antipatia à igreja…a AEA foi crescendo em influência e seu ministério começou a ser mais respeitado pelas igrejas e pelo Governo.” , fim de citação.

RELAÇÃO COM A POLÍTICA
A relação do Pr. Octávio com os políticos pode ser considerada como tendo sido de «fuga e ataque», a semelhança dos profetas que evitavam estar na presença dos reis, ou simplesmente em público, e quando aparecessem era para dizer, o Senhor disse:
Questionada sobre a posição do marido em relação a política, e se alguma vez mostrou estar preocupado com alguma coisa (relacionada com a política), a viúva e uma das filhas responderam: “Em relação a política; ele acompanhava mais não seguia os outros”. Por outras palavras ao contrário de muitos dirigentes de Igrejas, ele evitava comprometer-se.
As vezes os medias públicos, sobretudo a Rádio Nacional de Angola (RNA), com destaque para o programa “café da manhã” conseguia uma entrevista com ele, e outros dirigentes de Igrejas, instituições eclesiásticas, académicos e da chamada sociedade civil pro-regime na qual buscavam a sua bênção para alguma decisão ou política polémica do governo. Manipulando a entrevista, lá punham-no a concordar com a linha de pensamento do governo. Mas o mesmo não sucedia com as pregações que geralmente proferia no início ou encerramento de uma actividade ecuménica . Nas quais era bastante contundente contra a corrupção e o arrastamento deliberado da guerra!
No período pós-independência, antes do Pr. Octávio Fernando não há memória em Angola de um dirigente eclesiástico que tenha criticado tão abertamente os regimes de Luanda e da Jamba apartir de um púlpito e depois dele só o também malogrado, Frei João Domingos .
(…) “Eu não estou a brincar irmãos, estou a trazer a mensagem de Deus que agrada a Deus para que Deus traga a paz para esta nação. Todos os dias, ouvimos os trilhões que desapareceram [do BNA…]. Falta de respeito pelo povo! Como é que o povo morre de fome e ainda há alguém que me tira os trilhões e fica impune?!
Bem-aventurados os limpos de coração […]
Teu coração é limpo?!
Teu coração não te condena?
A Bíblia diz: Se teu coração não te condena tens paz com Deus, mas se o teu coração te condena, maior é Deus que conhece melhor o teu coração.
A consciência de que nós não vamos prestar contas a Deus é do diabo […]
Limpo de coração é ser íntegro;
Limpo de coração é não ser hipócrita;
Limpo de coração é não ter duas caras;
Você é limpo?![]

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Onde estão os pacificadores?!
É o angolano que mata angolano!
Onde estão os pacificadores angolanos?!
Está todo mundo voltado para a UNAVEM, está todo mundo virado para o PAM! Será que não há quem pensa?!
Onde estão os pacificadores?!
Olha o galardão: Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus.
É tempo para acabar com a cultura do conformismo, é tempo para instaurar uma cultura de diálogo, é tempo de edificar uma cultura de diálogo, de confronto de ideias, sem mutilações. E se assim fizermos, se assim formos, Deus de paz esteja com todos nós. ”, In Relatório do EDICA, 1995).

O roubo dos trilhões no BNA foi até então, o maior crime económico que deu nas vistas do povo. Depois do pastor Octávio ter falado sobre o assunto, um general cristão muito chegado a ele, cujo nome não revelou disse-lhe para ter muito cuidado porque o regime não gostou…
Os familiares confirmam que por causa dessas pregações recebia cartas anónimas, inclusive de alguns colegas do ministério (pastores) a aconselhar-lhe à cautela.
Segundo Faustino Paulo Mandavela , “num seminário organizado pelo GBECA no Huambo em Maio de 2003 , convidado a falar sobre o “Custo da Liderança” após ter-se referido à essas cartas anónima lacrimejando, disse: “tenho pedido a Deus que se tiver que morrer deixe Ele que o meu filho cassula cresça, porque não vejo igreja que possa cuidar de um órfão [de pastor], e ainda [por cima], órfão do Octávio”.
Era um obreiro simples, frontal e corajoso, que preferiu obedecer à Deus a acatar os conselhos dos familiares, colegas do ministério e do seu próprio instinto natural de conservação da vida, que certamente, também, não deixou de apelar, no seu íntimo, a cautela.
A “coragem ministerial” como a chamou Paulo Mandavela, deve ser o seu maior legado. “O GBECA, [segundo Mandavela], é uma das organizações que mais se beneficiou da coragem ministerial do pastor Octávio especialmente nos anos desérticos de 1987 quando estudantes universitários cristãos foram expulsos do ISCED (do Lubango). Acto consequente alguns deles incorporados compulsivamente nas então Forças Armadas Populares de Libertação de Angola – FAPLA, outros suspensos e ou ainda transferidos para municípios como a Jamba, também chamada de mineira, desrespeitando a lei de adiamento militar de que beneficiavam, sob a acusação única de haver no lar um grupo clandestino que se reunia para orar. Nesta altura os estudantes haviam distribuído um documento em sua defesa a todos os departamentos da esfera ideológica do MPLA, a Presidência da República, a Reitoria e a ex Assembleia do Povo.”, fim de citação.

PARCERIAS

Em 1987, o Pr. Octávio acompanhado pela irmã Tonica (como tradutora) fez uma viagem à Inglaterra, Holanda e Alemanha, em busca de parceria com organizações cristãs. Essa digressão resultou no estabelecimento de laços de cooperação com a Tear Fund (do Reino Unido), ICCO (da Holanda) e Hilfe fur Burden, em Português, Pão para Vida (da Alemanha), que se concretizaram na forma de projectos. Na assembleia-geral de 1988 foi reaberto o Departamento de Acção Social, quebrando assim um período (4 anos) de quase estagnação e isolamento .
Foi estabelecida uma parceria com a Visão Mundial na área de saúde pública e com MAF conseguiu-se comprar um terreno onde construiu-se um escritório, refeitório, sala de conferências, dormitórios, e uma casa para o secretário-geral.
Todavia, o Pr. Octávio recusou-se mudar-se para a casa que era dele por direito. Preferiu continuar na sua casa pessoal sito na Avenida Comandante Valódia, prédio 182, 1º andar, D. Pelo que ordenou que a referida residência fosse arrendada e que o dinheiro revertesse para os cofres da organização. Uma decisão considerada sábia por alguns e pouco sensata por outros. Mas essa e outras decisões polêmicas tomadas pelo Pr. Octávio e suas consequências serão abordadas mais adiante.
Foi também reforçada a parceria com instituições congéneres ao nível da África. Entre 1990 e 1991 o Dr. René Daidanso, vice-presidente da Associação de Evangélico da África e Madagascar (AEAM), visitou Angola duas vezes para partilhar seus conhecimentos e experiências de liderança.
Treze anos depois da 1ª digressão do Pr. Octávio à Europa, Amandio Mavela, Director do DAS escreveu num memorando de serviço, o seguinte: “ a caminhada que o DAS percorreu no exercício das suas funções é hoje substituída por uma nova estratégia de trabalho para bem das comunidades que a AEA serve. Urge, portanto esclarecer a situação d[os] projectos para melhorar a sua [referência ao destinatário] compreensão no tratamento dos … procesos que decorrem no espaço de Janeiro a Dezembro de 2000. Conforme nosso relatório de 1999, foram acompanhados 10 projectos dos quais, 4 considerados de assistência técnica, 2 de saúde e 3 de segurança alimentar . A execução do plano de cada um dependeu da capacidade financeira em função das remessas disponíveis e do ambiente em que se realizou a acção…”.

CRESCIMENTO

Com o advento dos projectos, o staff foi aumentando de número: Gerald Verbeek e sua esposa Anneke (foram enviados pela Tear Fund da Holanda como assessores), Dr. Alexandre Saúl (integrou a equipa para coordenar o programa de saúde, que ficou conhecido por Comissão Médica (CM) com apoio de várias ONGs com destaque para a Visão Mundial e a ICCO), Amandio Mavela (que mais tarde assumiu a direcção do DAS), etc.
O boletim informativo, um dos projectos mais atingos, adquiriu um novo rosto e passou a ser apoiado pela Tear Fund do Reino Unido. O outro é o da formação de líderes de igrejas, com destaque para a formação em teologia. Um velho sonho que se concretizara na constituição do STEL (Seminário Telógico Evangélico do Lubango), que mais tarde transformou-se em ISTEL (Instituto Superior Teológico Evangélico do Lubango).
Aliás para muitos dirigentes de Igrejas membros da AEA a missão primária se não mesmo a única era manter as igrejas informadas sobre os progressos e recuos do evangelho em Angola e criar condições para assegurar o acesso dos pastores e outros dirigentes de igrejas membros à formação teológica. Para esses líderes todo o trabalho social desenvolvido pela AEA no âmbito da cooperação internacional representava muito pouco, falando sobre isto, a irmã Tonica disse: “ – por alguns anos, muitos acreditavam que [o trabalho social] era incompatível com a fé evangélica.”(Tonica, 2006).

RELAÇÃO COM A IGREJA
Converteu-se ao cristianismo na Igreja Assembleia de Deus pentecostal (ADP), mas na década de 70 mudou-se para a Igreja Cristã Evangélica de Luanda (ICEL), que mais tarde adoptou a designação de ICEA (Igreja Cristã Evangélica de Angola) por influência de seu primo e tutor, o Pr. António João, em cuja casa viveu, até se casar em 1977, com a Sra. Ou se preferir, diaconisa Carolina Guia Manuel, ele com 26 e ela 17 anos. Portanto os convertidos na sua “parentela” ou são da ADP ou da ICEA. Porém para decepção e orgulho da direcção da sua denominação em 1984 foi eleito secretário-geral da AEA – uma instituição (ecuménica) que congrega no seu seio 10 igrejas e 2 organizações para eclesiásticas.
Apreciava e encorajava o ecumenismo no seio dos evangélicos e pentecostais e bastante crítico ao Catolicismo e as chamadas seitas e movimentos messiânicos. Todavia tinha muito respeito e admiração por alguns bispos católicos e era amigo do bispo Zacaria Kamuenho e Anastácio Kahango. Talvez por ter trabalhado com eles mais de perto no âmbito do COIEPA e do Pro-Pace.

Serafim Armando Quintino; Luanda, 12 de março de 2014

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: