Os povos africanos precisam de Neemias

Serafim Quintino

Lembro- me que quando decidi assumir-me como Cristão no início dos ano Noventa, a semelhança de todo recem-convertido, a minha mente era bombardeada com uma série de perguntas, algumas das quais, aparentemente ridículas, mas que eram de fundamental importância para quem na verdade, tal como o próprio termo converter sugere, teria que virar as costas para a direcção que até então seguia.

Uma dessas questões que assaltavam a minha mente era: O que é que um futuro engenheiro que de engenheiro provavelmente só teria o nome, porque estava claro para todos que tinha uma alma de filósofo ou político, faria numa Igreja?

Não era afinal a Igreja uma empresa para teólogos, pastores, evangelistas, sacerdotes, padres, bispos, enfim, todas aqueles pessoas que «estavam proibidas» de se engajarem na gestão da cidade (a polis) ou mesmo de constituir familias…

Cheguei então a pensar em mudar de curso! Será que tenho que mudar para o curso de teologia?!. Mas teologia, não fazia bem o meu feitio. Eu poderia dar em filósofo ou político, mas nunca me imaginei na pele de teólogo!

A leitura do livro de Paul Freston, intitulado: Neemias, um profissional ao serviço do Reino foi de grande ajuda.

Uma das facetas de Neemias que mais me encoraja até hoje é que ele não era um homem do templo, todavia era temente a Deus. Ele era aquilo que os Ingleses chamam de civil servant. Um indivíduo que se preocupou sobretudo com a dimensão temporal e material da vida do seu povo…

A figura de Neemias encaixa-se perfeitamente no grupo da Igreja que algumas denominações, se não todas, chamam de leigos.

Neemias era portanto um leigo que como diria o apostolo Tiago mostrou a sua fé pelas obras.

Outro aspecto da vida de Neemia que me impressiona é que ele deixou o seu emprego de «chefe da casa civil» do Imperador para ir reabilitar a sua terra natal e aliviar o sofrimento do seu povo. Este foi o modo como ele serviu a Deus.

Todas vezes que as pessoas limitam o serviço do Senhor, ao trabalho de pregar o evangelho, estudar a Bíblia, celebrar a ceia do Senhor/eucarestia, casamentos, baptismos, etc., sinto-me arrepiado.

É verdade que estas coisas são importantes e a pregação do evangelho e o ensino/estudo da Palavra de Deus até são a prioridade, mas não devemos esquecer que a missão inclui o serviço (social) ao próximo.

Ora, se as primeiras tarefas são geralmente associadas ao «clero», o serviço social é pelo exemplo de Neemia o terreno dos profissionais cristãos, que geralmente, não fazem parte do clero.
Nas minhas andanças como consultor por este país; há três coisas que sempre encontro em todas comunidades: a miséria, uma ou várias Igrejas e a bandeira do MPLA. E sempre me questiono porque estas duas Instituições não acabam com a miséria dessas comunidades? A resposta que encontro: os profissionais/intelectuais dessas institituições não estão dispostos a abandonarem, como Neemias, a cidade imperial e sujeitar-se ao icómodo de trabalhar com analfabetos em comunidade onde falta, energia eléctrica, água canalizada, telecomunicações, estradas asfaltadas, colégios para os filhos, enfim tudo.

Serafim Quintino

Luanda, 24 de maio de 2010.

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