Uíge – terra de casas de abode queimado

Mais uma vez trago para este sítio uma reflexão, a pedido de alguém. Primeiro foi o Guido depois de ter lido o artigo que escrevi sobre o Sans de Angola; agora é a Micael.

Micael é natural do Uíge, estuda no Huambo na Faculdade de Ciencias Agrária; ao comentar o artigo: Nota vinte para as mulheres da Quibala, publicado neste espaço, pediu-me que visitasse a província do Uíge e escrevesse também um artigo…

A primeira coisa que me veio a mente quando li o email da Micael foi: o que se pode escrever sobre uma província tão vasta (16 municípios) e habitada por povos que pertenciam a um dos maiores reinos d’Africa do período pré-colonial – o reino do Kongo?!.

Já lá vai o tempo em que Uíge era conhecido como a terra do bago vermelho, se bem que alguns distraídos, incluindo governantes e jornalistas, continuam a identificá-la com esta designação! A verdade é que o café já não conta na balança comercial do Uíge nem de Angola; tanto é assim que os camponeses estão a substituir os cafeeiros pela mandioqueira.

Nos tempos do pós-independencia, o que conta é o petróleo, os diamantes e um pouco o peixe! Por isso, a importancia que o estado colonial dava as Províncias agrícolas tais como, obviamente, o Uíge, Malange, Kwanza Norte, Kwanza Sul, Huambo e Bié, se bem que estas últimas não são tão ricas em agricultura como se pensa, foi substituida pelas Províncias petroliferas, diamantiferas e pesqueiras: Cabinda, Zaire, Lunda Norte, Luanda e Benguela.

Assim como Huambo e Bié, funcionavam mais como celeiros dos produtos de outras Províncias, hoje, Luanda e Benguela funcionam como os principais depositários (consumidores) das riquezas produzidas noutras províncias!

Mas voltemos ao Uíge e ao que possa interessar a uma jovem eventualmente sem preocupações com questões de políticas e prioridades de governos, mesmo se estas afectam negativamente a vida das pessoas na sua terra natal, o Uíge!

A primeira vez que visitei a província do Uíge foi em 1981, em plena época da guerra civil, por isso como o caro leitor pode imaginar, a viagem não foi por terra.

Passei por Uíge, numa avioneta do PAM (Programa Alimentar Mundial), vindo de Mbanza Kongo, a capital da província do Zaire.

Como deve saber, as províncias do Zaire, Uíge e Cabinda são habitadas maioritariamente por povos Bakongos: Xikongo, Sussos, Zombos, Sorongos, Iacas, Kongos, Pombos, e Sukus (Henderson).

Ora, mais do que a língua, os traços físicos e os hábitos e costumes; o modo como preparam o principal material de construção (o adobe) é o que mais me impressionou!

Para mim a prática de queimar o adobe para construir as residências é mais do que uma marca de distinção cultural… Quem viaja de Luanda ao Uíge por terra, passando por Caxito, há de convir que o tipo de casa é o que lhe faz aperceber-se de que já não se encontra no território das comunidades Kimbundu!

O material de construção mais utilizado pelos kimbundus é o pau a pique ou às vezes, o adobe cru misturado ou não com capim.

Todavia, esta vantagem dos habitantes do Uíge e Zaire no domínio das tecnologias de construção, apropriadas ao contexto e de baixo custo, não pode ser atribuída unicamente a sua criatividade. Conta com o concurso da natureza, que coloca a sua disposição um tipo de argila cujas propriedades físicas e químicas permitem receber tratamento térmico..!

O adobe queimado além de ser mais resistente a acção dos agentes erosivos: chuva, vento e sol é mais agradável a vista. O adobe queimado não fica a dever nada ao tijolo, a prova disto é que, mesmo a obras do governo em M’banza Kongo e Uíge são construídas com adobe queimado.

A culinária do Uíge é bastante rica. Os produtos alimentares típicos mais originais (comuns a todos os bakongos) são: a famosa kwanga, a fumbua e o safu.

Dificilmente uma família Kongo, mesmo as consideradas mais ‘assimiladas’, lhe serviria ao pequeno-almoço: pão integral, bacon e feijão doce com leite.

A primeira vez que comi inhame e ginguba com café num pequeno-almoço foi na casa de um amigo mussorongo que vive na Suíça há mais de 25 anos. Isto é para dizer que, os bakongos são, dos três povos mais numerosos de Angola: Ovimbundos, Kimbundos e Bakongos, os mais apegados a cultura tradicional africana (bantu), o que eu aprecio muito.

Feito em Luanda, 10 de Fevereiro de 2010.

Serafim Quintino

Uma resposta a Uíge – terra de casas de abode queimado

  1. Henrique M.Cacueia Salomao diz:

    Que bom ler um comentario que narra a respeito de um povo bastante conhecido pela sua cultura e conservadores da mesma…Povo que a sua marca tbem reside pelo facto de serem bastantes dados em ciencias exatas.Valeu irmao Serafim Quintino !

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