Conservação e valorização da cultura

HPIM0919Pediram-me para partilhar com Dya Kasembe a dissertação do tema: “Conservação e valorização da cultura, hábitos e costumes; vantagens e desvantagens para a comunidade.”

 

Antes de mais nada gostaria dizer que tomei a liberdade de reordenar as palavras do tema. E introduzir, no lugar do artigo definido “a”, que precede a palavra comunidade, o artigo indefinido “uma”; por uma razão muitos simples: permite-me fazer uma análise mais abrangente.

 

Imagino que o proponente do tema tinha em mente um discurso mais direccionado para uma comunidade específica – a comunidade dos Luandos – mas acho que é sempre preferível “pensar global e agir local”.

 

Assim o tema passa a ser: vantagens e desvantagens da conservação e valorização da cultura, dos hábitos e costumes para [uma] comunidade.

 

Feitos esses pequenos esclarecimentos sobre o enunciado do tema; estamos em condições de entrarmos um pouco mais no seu conteúdo. Ou seja, analisar o significado de algumas palavras-chaves; condição sine qua non, para compreendermos a mensagem que se pretende passar.

 

  Há três palavras que interessa saber o significado: Cultura, hábitos e costumes.

 

O dicionário de Português (Dicionário Editora) define estas palavras da seguinte maneira:

 

Cultura, s. f. Acção, efeito, arte ou maneira de cultivar, lavoura; vegetal cultivado; meio de conservar, aumentar e utilizar certos produtos naturais; aplicação do espírito a uma coisa; desenvolvimento intelectual; a totalidade das manifestações espirituais que constituem a herança social de um povo ou de uma raça, e determinam a sua persistência histórica; sabedoria, apuro; elegância. (Lat. Cultura);

 

Costume, s. m. Prática antiga e geral; uso; hábito; moda; regra; traje; pl. Procedimento; usanças; práticas. (Do lat. * consuetumine; por consutudine);

 

Hábito, s. m. Roupagem de um membro da comunidade religiosa; vestuário; tendência adquirida, estável, que facilita a pratica de certos actos; uso; costume; aspecto; … (Lat. Habitu).   

 

É evidente que a cultura, os costumes e os hábitos a que o tema se refere são:

A totalidade das manifestações espirituais que constituem a herança social de um povo ou de uma raça, e [que] determinam a sua persistência histórica;

As práticas antigas e gerais e;

As tendências adquiridas, estáveis, que facilitam a prática de certos actos

 

A definição da palavra cultura leva-me a pensar numa máxima, que diz: “quando mais longe um povo olha para trás, mais longe olha para frente.”

 

Alfred A. Montapert, escreveu: O homem pode saber mais que os seus antepassados se começar por saber o que esses antepassados já sabiam. Por isso uma sociedade só pode ser progressiva se conservar as suas tradições. Quando se abandonam opiniões e regras de vida antigas não se pode prever a falta que fazem. Nesta altura não há bússola para nos guiar, nem podemos ver com clareza um porto onde ancorar” (1982, p.58).

 

Por outras palavras, a sociedade humana (a comunidade) é como um edifício em permanente construção e reconstrução; na qual as tradições culturais, os hábitos e costumes representam, as fiadas das paredes colocadas pelas gerações anteriores.

 

Agora é claro que do mesmo modo que nem tudo dos edifícios antigos é aproveitável assim também nem tudo das tradições culturais, dos hábitos e costumes deixados pelos nossos ancestrais é bom.

 

Discutindo esta questão no livro Kudisanza escrevi o seguinte: Em todos tempos houve povos que querendo conservar a sua identidade racial e cultural se fecharam hermeticamente contra as influências de outros povos, nós somos um desses povos que, tendo conservado a sua identidade ancestral, contudo, perdeu a possibilidade de enriquecer a sua cultura e de se adaptar as exigências da época, sobretudo às mudanças provocadas pelos avanços da ciência e da tecnologia.

 

Enquanto que, outros querendo se adaptar às exigências da época esvaziaram a sua identidade racial e cultural ancestral, perdendo de igual modo a possibilidade de enriquecerem a sua cultura (ninguém enriquece o que não tem) e se adaptar as exigências da época.

 

Entretanto houve outros povos que souberam conservar o essencial das suas tradições e introduzir valores culturais desenvolvidos por outros povos sem prejuízo ao legado dos seus antepassados e rejeitar o supérfluo e pernicioso, tanto da sua cultura como a dos outros povos.

 

Por isso o projecto Kudisanza desde o início prestou uma especial atenção a questão do resgate e valorização dos aspectos positivos do legado cultural dos nossos ancestrais e ao mesmo tempo a adopção dos aspectos positivos da cultura de outros povos, fim de citação (p.302).

 

Olhando para a situação de estagnação e pobreza em que algumas (muitas) comunidades e povos do mundo em particular de África se encontram; uma questão sempre me vem na mente: haverá práticas antigas e gerais; ou tendências estáveis adquiridas por essas comunidades, que facilitam os seus membros a adoptarem um comportamento desfavorável ao progresso técnico-científico?

 

Identificar e modificar essas práticas e tendências na comunidade dos Luandos é um dos resultados esperados do Projecto Kudisanza.

 

Os naturais da Kissama, em particular dos Luandos, aqui presentes sabem que na base do nosso subdesenvolvimento está uma certa tendência de fugir (auto excluir) ao contacto com o exterior!

 

Um dia, numa reunião na comunidade dos Luandos, afirmei o seguinte: se sai muthu wa tufumbu, wa tu fumbila bhu soneka n’utanga! – Isto foi em 1999, quando levamos o professor que leccionaria pela primeira vez a 5ª classe nos Luandos – os presentes aplaudiram, e mexeram as cabeças concordando comigo.

 

O que demonstrou que terei dito uma grande verdade, mas até hoje, a mesma comunidade continua a revelar uma enorme dificuldade de assegurar o acesso dos seus próprios filhos a uma educação adequada e completa, os jovens não cultivam o gosto pela leitura, e os adultos, mesmo os que vivem nas cidades, evitam continuar a sua aprendizagem. Este é sem dúvida um hábito e costume a evitar.

 

Portanto, a questão que se coloca, não é tanto se há vantagens ou desvantagens para uma comunidade, em conservar a sua cultura, hábitos e costumes. Mas, saber que aspectos da sua cultura, hábitos e costumes devem ser conservados ou rejeitados?

 

De resto como foi dito acima a cultura, os hábitos e costumes de uma comunidade constituem a base sobre a qual, ela pode construir o seu futuro; um futuro que pode ser de progresso e felicidade ou estagnação e miséria conforme aquela comunidade preserve e adopte da cultura de outros povos aspectos positivos ou negativos.

 

 

 

 

Luanda, 31 de Março de 2008.

Serafim Quintino

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