Traídos pelos melhores entre herdeiros…

223No âmbito da celebração do aniversário da África,  trago hoje,  para este  espaço um artigo, entitulado: traídos pelos melhores entre herdeiros…», que escrevi em 1997  e  serviu de base para um debate que animei numa palestra com militantes da FpD, a convite de um amigo que milita(va) naquele partido.

O neocolonialismo em África

Quando aos 25 de Maio de 1963 em Addis Ababa (Etiópia) os também conhecidos como os pais do nacionalismo Africano: Nkwame Nkrumah, Abdel Nasser, Jomo Kenyata, Seku Touré, Julius Nyerere, etc., fundaram a OUA, traçaram como objectivo a luta pela independência total da África. Naquela altura alguns ideólogos do nacionalismo africano senão mesmo todos eram unânimes em reconhecer que a independência total da África teria três etapas: A independência política, cultural e económica. A independência a que se propunham conquistar era a política, que em termos práticos significava um presidente (de preferência negro), uma bandeira e um hino nacional. Hoje todos os países africanos estão politicamente independentes (entendida a independência política nos termos em que a definimos acima) mas estão ainda muito longe da independência cultural e económica! Os colonizadores não podendo manter sobre as suas colónias, um controlo do tipo colonial, devido ao facto da própria Europa ter-se dividido em dois blocos com ideologias diferentes. E devido ainda, as intermináveis guerras entre as nações europeias, assim como os sangrentos conflitos de classes sociais. Tudo isso acrescido ao facto dos negros terem-se forjado nestas lutas e fazerem parte dum grande movimento internacional que reclamava um novo redimensionamento político, cultural e económico do mundo. Não restou outra alternativa aos colonizadores senão dar aos nacionalistas africanos e de outros países do mundo: Um presidente, uma bandeira e o respectivo hino nacional. Porém substituindo o velho sistema por um outro conhecido por neocolonialismo. Ao contrário do colonialismo que consistia na desestruturação política, cultural e económica das nações e estados africanos pré-coloniais (verdadeiros estados africanos). Ou se preferir estados africanos verdadeiramente soberanos, através de um combate cerrado contra os seus valores (locais) e a sua consequente substituição pelos valores dos povos europeus ou de outras partes do mundo, mas que foram primeiramente adaptados à cultura europeia – provocando no subconsciente do homem negro a vergonha pela cor da sua pele, pela sua cultura, identidade, tecnologia – obstruindo assim a sua curiosidade e espírito criador. O neocolonialismo portanto é um “casamento” entre um estado “recém-nascido” e outro que tinha recebido o estatuto de potência com direito a manter sobre uma ou várias nações do “terceiro mundo” um controlo cultural e económica logo a seguir a segunda guerra mundial. Este “casamento” se por um lado inspirava confiança ao novo estado controlado por um dos “grupos” de nacionalistas que tomou o poder em detrimento dos outros. E quer a todo custo conservar a independência ora conquistada, por outro lado não permitia que o grupo no poder abrisse novas frentes para a conquista da independência cultural e económica. Nem sequer podia levar a mesa estas questões para não ferir a sensibilidade e os interesses dos seus protectores. Porém para desviar a opinião pública nacional e internacional gastavam o seu tempo e o dinheiro do país na luta contra os outros grupos de nacionalista excluídos durante a luta a data da Independência. Ou algum tempo depois por não concordarem com a forma de governo. Assim muitos estadistas e governantes do “terceiro mundo” em geral e da África em particular que eram outrora os nacionalistas mais intrépidos, que não poupavam esforços na luta para a conquista da independência total dos seus países, acomodaram-se as mordomias e regalias dos seus “maridos” europeus e americanos e rapidamente tornaram-se em verdadeiros inimigos da independência dos respectivos povos. Tornaram-se numa “burguesia compradora” e em muitos lugares da África em percursores dos objectivos assimilacionistas das ex-potências colonizadoras. Nesta nova política – neocolonialismos – o país dominador exerce uma influência menos clara do que no passado – colonialismo – e desconhecida pelo povo, mas que leva consigo dramas, alienações e injustiças bem maiores do que em tempos passados e haverá repercussões ainda mais duradouras, profundas e desastrosas na história dos povos subdesenvolvidos por causa desses regimes. O que o povo, não sabe é que aqueles que eram «os melhores filhos da África» até a data da Independência política, já não são mais os seus filhos! Já se venderam a «nota verde», adiando assim a nossa emancipação, e são agora os novos colonizadores – intermediários daqueles que outrora exerciam um domínio direito sobre o continente –, e que de armas na mão, todos nós nos esforçamos a expulsar das nossas terras, pelo menos por alguns dias – uma verdadeira traição.

A democracia em Africa

Passado pouco mais de 50 anos, com o fim da guerra-fria, o mundo abriu novas portas para um novo redimensionamento, um novo posicionamento das nações umas em relação às outras. Isso como sempre pode ser e tem sido aproveitado pelos revolucionários de todo o mundo para dar mais um passo em frente na sua luta por um objectivo predefinido. No caso da África, a dignidade do homem Africano, especialmente o negro. Assim surgiram em África os ventos da democracia. Quero abrir aqui um parêntesis para dizer que tal como o capitalismo e o socialismo, a democracia tal como a conhecemos hoje é uma emanação própria da evolução da Europa Ocidental. As crises que estas provocam podem e devem ser aproveitadas pelo mundo inteiro para se libertarem da hegemonia do Ocidente, sem precisar de se converter naquilo que eles acham a determinado momento da sua história ser a melhor forma de «estar» ou administrar um estado – a menos que tenha sido uma necessidade interna. Foi neste ambiente em que nasceram em África em geral e em Angola em particular novos partidos políticos. Alguns, incluem nas suas designações, a palavra democracia, outros, provavelmente a maioria pretendem ser defensores ou promotores da democracia! Trata-se de lutar pela democracia ou pelo desenvolvimento? Digo isso porque a maioria dos partidos políticos Africanos tradicionais que conduziram a luta de libertação diziam ser de orientação Marxista-Leninista (era a moda na altura). Diziam que estavam a construir o socialismo! Quando eu era adolescente acreditava que até o ano 2000, Angola seria um país socialista. Hoje querem fazer crer a minha filha que Angola será um país democrático em 2030 – o pior é que os mesmos que combateram a democracia, hoje pretendem ser os promotores da democracia. Não estou a desencorajar a luta que se trava hoje para se construir um estado democrático de direito. Não senhor! Pelo contrário estou a remar nesta direcção, porque considero que a democracia pode ajudar a assegurar a manutenção da diversidade étnico cultural das nossas nações. O que geralmente os estados unitários dirigidos por regimes totalitaristas não permitem. Quero apenas chamar atenção para o seguinte: A democracia define-se como sendo o poder do povo ao serviço do povo. Este, o povo, estabelece os limites da autoridade dos seus líderes e fornece mecanismos de controlo para manter o equilíbrio, ou seja confere aos seus líderes autoridade, mas tem o direito de retirá-la quando acreditar que já se desviaram do combinado ou chegou o tempo de dar oportunidade a outros cidadãos. E durante o exercício das suas funções os líderes prestam contas ao povo. E finalmente, a verdadeira democracia para que possa funcionar apropriadamente requer pessoas instruídas, informadas e responsáveis. Para prestar contas se ocupar um cargo público ou exigir prestação de contas enquanto cidadão. Muitos partidos políticos africanos que ascenderam ao poder após a independência (geralmente partidos únicos), diziam estar a orientar o povo (pelo menos aqui em Angola) na construção do socialismo científico! Houve um governante que questionou como seria possível construir o socialismo científico? Repare bem a ironia. Socialismo cientifico, num país onde mais de 80% da população era (e continua a ser) analfabeta! Por outras palavras num país onde as pessoas não acreditavam e continuam a não acreditar na ciência, incluindo os governantes! E parece que o seu chefe mandou-lhe calar a boca. Todavia hoje acho que o receio daquele governante e nacionalista se confirmou, mas não houve quem tivesse a coragem de lhe dizer que tinha razão. Entretanto, hoje eu questiono-me como será construída a democracia em África em geral, e em Angola em particular, se para além de mais de 80% da população ser analfabeta o próprio ensino foi tirado das prioridades dos governos? Fazer um estado democrático e de direito com ignorantes e analfabetos que não podem ler as leis ou a própria constituição é uma injustiça. E a sociedade deve desconfiar daqueles que dizem que estão a promover a democracia, mas não fazem nada para educar o povo que vai gerir essa democracia.

Uma agenda mais de acordo com a nossa história

Os partidos políticos modernos surgiram como resposta à necessidade de uma alternativa aos partidos políticos tradicionais. Que tendo conseguido orientar o povo na luta pela independência política não conseguiram dar o passo a seguinte. Ou porque, uma vez tendo tomado o poder converteram-se numa “burguesia compradora” fortemente comprometida com os interesses estrangeiros, ou tendo sido estruturados para levar a cabo um processo de descolonização, continuam a pensar e agir como se a luta de África hoje fosse a conquista de uma independência política, portanto contra as instituições do estado. Porém os partidos políticos modernos ou mesmo tradicionais Africanos, que estão realmente interessados em conduzir os respectivos povos a emancipação devem redefinir imediatamente as suas visões e caminhar sobre uma linha política, cultural e económica mais de acordo com a sua história. É preciso definir bem os verdadeiros inimigos dos povos do continente e as armas a utilizar. O valor do debate que este documento vai suscitar está precisamente na identificação dos verdadeiros inimigos e colocá-los numa lista de prioridade. Quem quer ser alternativa não pode utilizar as mesmas armas que o seu adversário, além de que tem de apresentar uma solução para o que aquele não foi capaz de resolver. Afinal quem é o verdadeiro inimigo dos povos do continente ou do país? Qual é o campo de batalha e quais são as armas para o combate? Gostaria que o próprio leitor respondesse a estas perguntas. Mas vou lançar um pouco de luz sobre o assunto.

Voltemos ao princípio!

A independência total da Africa como a que definimos mais acima é igual a independência política, mais a independência cultural, mais a independência económica. A ordem é obrigatória. E já foi dado o primeiro passo. A fase final é a independência económica o que só é possível depois de uma revolução cultural e técnico-científica – ou seja, após a independência cultural. Ora, se a independência política é a fase final de um processo que começou com a aculturação dos povos africanos então a independência económica é a fase final de um processo que deverá começar com a devolução (aos povos) das suas culturas, enriquecidas com valores positivos trazidos por povos não Africanos, incluindo os Europeus. Assim ao contrário dos partidos políticos tradicionais que fazem agora o jogo dos opressores, um partido político moderno autenticamente revolucionário, neste momento da nossa história deveria lutar por outorgar ao povo os únicos instrumentos de emancipação que o mundo conhece: a educação e o trabalho. O trabalho é tão importante para a vida do homem que Karl Marx e mais tarde Lenin apoiados nos estudos do naturalista Charles Darwin ensinaram que o trabalho era o pai do homem! Tenho sérias dúvidas de que isso seja verdade, mas que o trabalho dignifica o homem isto lá é verdade. E a nossa luta é a dignificação do homem Africano sobretudo o Negro. Não posso compreender como é que um continente com gente tão inteligente e potencialmente rico não consiga transformar-se num paraíso? Como é que os africanos nas sanzalas, musseques bantustões ou guetos das cidades continuam sendo farrapos humanos, vítimas da ignorância, analfabetismo, misticismo, doenças, desnutrição, fome, nudez, pobreza, etc. Pelo facto de não terem acesso ao segredo do desenvolvimento que está guardado num código estranho e difícil de assimilar – a cultura ocidental. Resumindo e concluindo sem um renascimento africano – transferência do conhecimento científico na linguagem e filosofia africana – não surgirão aqui e acolá, em África ou no mundo Negro comunidades que apresentem uma conhecimento, organização e disciplina favorável ao desenvolvimento nem uma qualidade de vida dignas de serem consideradas de desenvolvimento.

O ponto de partida

As independências políticas em África marcaram o fim da etapa de formação de uma consciência nacionalista que atingiu o seu apogeu na década de 60 do Séc XX , e que começou com uma campanha de educação de um pequeno grupo de Africanos (tarefa levada a cabo principalmente pelas missões protestantes e católicas), e que mais tarde viria a constituir a elite que dirigiu a luta pela independência política e integrou os governos das primeiras Repúblicas, ou no caso de Angola o Governo de Transição. A independência cultural e económica que abordaremos com mais profundidade mais adiante, igualmente resultarão de uma campanha massiva de educação de todos os cidadãos. Por outras palavras se para alcançar a independência política bastou despertar pela educação uma pequeníssima parte dos povos colonizados, para a emancipação cultural será necessário levar o ensino à um maior número de pessoas enquanto que a independência económica exige mesmo uma eliminação completa do analfabetismo e de todos os complexos de inferioridades herdados do colonialismo e dos que ainda serão criados pelo neocolonialismo e peça política de exclusão dos actuais governos corruptos.

25 de Maio de 1997

 

Serafim Quintino

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