Querem «intrumentos de trabalho de maior rendimento»!

serafimwk.jpgHoje trago para este espaço uma reflexão sobre a segurança alimentar. Quero compartilhar com os usuários desse «sítio» aquilo que foi dito por pessoas de cerca de 70 comunidades, onde fui fazer estudos encomendados por diversas agências de desenvolvimento.  Passado o período de emergência, o governo, as agências internacionais de desenvolvimento (os doadores) e as ongs internacionais e nacionais vão se preocupando cada vez mais com a questão do desenvolvimento sustentável. Por isso também, o tipo de informação que os estudos vão procurar no terreno é outro. No ano de 2005 participei num estudo (levado a cabo por duas equipas de 3 pessoas cada) comissionado pelo Banco Mundial e DFID (Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional) em 9 Províncias: Lunda Norte, Moxico, Kuando Kubango, Cunene, Huíla, Benguela, Huambo, Malange, Cabinda. O estudo buscava compreender a vulnerabilidade em Angola; sobretudo entender os processos que levavam as pessoas a se tornarem vulneráveis.  No ano seguinte eu e a Cristina Gamboa realizamos um estudo em dois municípios do Uíge: Cangola e Bungo,  encomendado pela Cristian Aid e, recentemente participei com o Ricardo Daniel em mais um estudo também em 2 municípios: Quibala e Waku Kungo no Kwanza Sul, igualmente encomendado pela Cristian Aid. Ambos estudos visavam recolher dados e informação para projectos de sergurança alimentar que seriam financiados pela Christian Aind e implementados pela IERA (Igreja Evangélica Reformada de Angola), no Uíge e ACM (Associoação Cristã para a Mocidade), no Kwanza Sul. Uma das questões que colocavamos aos entrevistados era: o que precisam para terem mais comida? Ou seja para aumentar a segurança alimentar da família.  No primeiro estudo (Banco Mundial e DFID) foram feitas entrevistas aos chefes ou membros  adultos (na ausência dos chefes) dos agregados familiares, e à grupos focais de homens, mulheres e jovens de ambos sexos. No segundo estudo, só foram feitos grupos focais e no terceiro, inquéritos e grupos focais mistos ( homens, mulheres, e jovens de ambos sexos). E as respsostas eram sempre: “uma lavra «mais grande», boi e charrua, tractor, ajuda”.  Uma lavra grande é, segundo as famílias e os grupos focais entrevistados, a solução para a questão da fome –  segurança alimentar –  no meio rural.  Naturalmente sempre aprofundavamos as questões. Procuravamos saber as motivações das suas respostas e, curiosamente em todas as comunidades, de Norte à Sul, estabeleciam a mesma ligação entre as propostas de solução, por si sugeridas: para ter lavra grande é preciso ter muita força. O que só é possivel se o agregado familar possui  muitos adultos ou  gado de tracção ou ainda, acesso a tractores”.E de facto os dados recolhidos naquelas pesquisas revelam que há uma relação direitamente proporcional entre o tamanho do agregado familiar, o tipo de instrumentos de trabalho que a família possui ou tem acesso, e a pobreza no meio rural. As famílias com poucos adultos comparativamente ao número de crianças, e as chefiadas por pessoas portadoras de deficiências, velhos e alcoólatras são as que tendem a ser mais vulneráveis. Àquele grupo também se junta algumas mulheres abandonadas. De qualquer forma, estas pessoas têm algo em comum: menos força para realizar determinados trabalhos que, no meio rural, contribuem para aumentar a segurança alimentar da família: o derrube de árvores para novas lavras, a caça, a apicultura, a pesca no rio, etc. Daí a necessidade da ajuda do gado de tracção e do tractor. Todavia, para acumulo da desgraça são também estas famílias que  não têm gado (no sul de Angola) nem acesso a  tractores[1].  É claro que a ausência de infra-estruturas socio-económicas – destruídas pela guerra – tais como: estradas, pontes, canais de irrigação, lojas, mercados, etc, têm um peso muito grande sobre a pobreza rural em Angola, mas «o acesso aos instrumentos de trabalho de grande rendimento» para aumentar o tamanho das lavras é a solução mais apontada pelas comunidades. Talvez porque é a que está mais directamente sob seu controlo.  Portanto, os governos, ongs, cooperativas e associações cujas políticas e programas de accão prestarem maior atencão a introdução (massificação) de tecnolgias apropriadas de produção e conservação de bens materiais indispensáveis a vida: alimentos, medicamentos, habitação, vestuário, vias de acesso, etc., são os que a médio e longo prazo maior contribuição darão para a grande missão de “até 2015, reduzir para metade a pobreza, fornecer alimentos a todas as famílias, enviar todas as crianças à escola e travar a disseminação do VIH/Sida” (Walter António Jornal de Angola, Ano 30, No 10548; Quarta feira, 18 de Outubro de 2006, p.4). Sei que, com a excepção do Governo, que contava com um orçamento “estimado em 3,15 biliões de dólares” (idem) para a implementação da Estratégia de Combate a Pobreza (ECP) no “período 2003/2006” (idem), –  imagino que parte do dinheiro foi entregue ao IDA e a MECANAGRO; porém as comunidades onde passei nem o nome daquelas instituições conhecem – para a maioria dos actores, sobretudo as ongs nacionais e mesmo as internacionais falar  de tractor é um absurdo. Mas, que tal o gado de tracção? Acho que é perfeitamente acessível aos orçamentos das ongs. Serafim Quintino, Luanda, 13 de Julho de 2007.


[1] As populações do Norte, Centro Norte, e Leste não têm o hábito de utilizar o gado de tracção, por isso, apenas solicitaram tractores. Segundo, o Ricardo Daniel, que é engenheiro agrónomo “a introdução da tracção animal (extenão rural do perído colonial) não chegou ao Norte” e naturalmente já não foi retomado no período pós-independência. 

Uma resposta a Querem «intrumentos de trabalho de maior rendimento»!

  1. funny diz:

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