Sobre os Ovimbundu

 Espero que não esteja a abrir um precedente que futuramente me amarrará. Mas é que encontrei no «site do cadit» um comentário que também é um pedido. Depois de uma profunda reflexão decidi satisfazer este pedido. Não tenho  a mínima ideia da expectativa da pessoa que fez tal pedido, apenas da minha: que os leitores compreendam que, ao aceitar escrever este artigo de opinião estou a aventurar-me num terreno muito escorregadio. Acho que opinar sobre um povo é sempre um assunto sensível.  Mas também devo confessar que achei o desafio interessante. Pensei! Será que ao escrever poderei ajudar em alguma coisa esse meu amigo e outros que vierem a ler o artigo? Alías, foi mesmo para ajudar que decidi criar o «site».  Ora, falar dos  Ovimbundu é falar de um dos maiores grupos étnicos bantu[1] de Angola.. Os outros, por ordem alfabética,  são: Bakongo, Kimbundu e Lunda-Tchokwe. Os Ovimbundu são juntamente com os Kimbundu as únicas etnias que estão totalmente dentro de Angola. Ambos utilizam a raiz mbundu ( ki-mbundu, ovi-mbundu), o que denota haver uma certa relação mais estreita em termos de origens (passado histórico) do que a conferida pela raiz «ntu», que é comum à um conjunto de povos negros da África subsariana que a utilizam para dizer pessoa: muntu, singular, e bantu, plural.  No seu livro a Igreja em Angola, Lawrence W. Handerson, um Norte Americano que veio para Angola em 1948 (onde viveu 21 anos)  como missionário – Em Angola, Henderson residiu no Bié, Lobito, Galangue, Cachiungo e Huambo. Dois dos seus 4 filhos nasceram na missão do Dondi, Cachiungo– diz, e eu cito: “os ovimbundu estabeleceram-se a sul do rio Cuanza, no planalto central, dispersando-se pelos destritos mais populosos de Angola: Huambo, Benguela e Bié. A partir deste centro populacional, os umbundu foram-se espalhando por todos os outros destritos; e, assim, este grupo, que era o mais homogéneo de todos, era também, paradoxalmente, o mais abrangente de todos os grupos linguisticos. O grupo umbundu constituiu terreno fertil para a implantação da Igreja, devido à sua homogeneidade e, ainda, ao facto de as pessoas viverem em aldeias relativamente grandes. A imbo (plural ovaimbo) era composta por dez a cinquenta focos, com uma população que oscilava entre 100 à 1000 pessoas. Em geral, a aldeia recebia o nome do seu fundador, de quem o membro mais velho da aldeia muito provavelmente descendia. Apenas o ancião da aldeia, o sekulu, podia falar da “minha aldeia” (limbo liangue); para o resto das pessoas, ela era a “ nossa ladeia” (limbo lietu). Em território umbundu apenas as pessoas ligadas pelos laços de sangue construiam as suas casas na mesma aldeia. Em finais do seculo XIX, os Umbundu estavam organizados politicamente em doze reinos, dos quais o do Bailundo, o do Huambo, Bié, Chiyaka, Galangue e Andulo eram os mais poderosos.”( 2001, p. 22-23) Efectivamente a Sul do Kwanza em todas as comunidade onde eu trabalhei (fiz pesquisas) os ovimbundu se não são o grupo maioritário (Benguela, Bié e Huambo) veêm em 2º ou 3º lugar  (Kwanza Sul, Malange, Moxico, Kuando Kubango, Namibe, Huíla). Messmo nestas últimas províncias, nas cidades e em algumas comunidades que fazem fronteira com as três anteriores, os ovimbundu são o grupo predominante,  por exemplo: Mussende (Kwanza Sul), Lubango (Huília) e Namibe, só para citar alguns. Uma das características dos Ovimbundu que salta a vista é a sua capacidade de sair do seu espaço social e cultural original, receber influências exteriores sem esvaziar o seu património histórico e cultural – sobretudo a língua. Isto é positivo. É o que Frantz Fanon chama “assimilar sem ser assimlado”.   Um dia encontramos no Safari Ngandu Lodge, Rundu (Namíbia), uma jovem que nos disse ter 21 anos de idade, e ser filha de pais do Humabo. Ela disse-nos que nasceu na Namíbia e de Angola só conhece o Calai. Do Rundu para Calai é só atravessar o rio Kuvango à canoa. Eu estava com um amigo que é natural do Huambo. Ele falou com a menina em Umbundu e disse-me que “ela fala perfeitamente bem o Umbundu”. Se aquela menina fosse filha de pais Kimbundu, provavelemente nem o Português quereria mais falar (estou aberto as críticas). Mas eu também sou Kimbundu e sei que existe no nosso seio essa fraqueza de espírito por isso é que algumas tribos kimbundu se tornam como diz Henderson  no “centro da assimilação” (idem, p. 21). Os umbundu (nas comunidades em que trabalhei) são também os que mais diversificam os seus «meios de vida». São os unicos que se dedicam simultaneamente a produção de cereais, hortícolas, e a pastorícia. Do gado aproveitam tudo: a  carne, o leite, o estrume. E do ponto de vista da tecnologia, tiram proveito da roda e da força bruta de alguns animais (boi, burro e cavalo) para a lavoura e transporte de carga. Por outras palavras não só  o grupo umbundu constituiu terreno fertil para a implantação da Igreja, como também da introdução de novas técnicas de produção de alimentos (extensão rural).  Enquanto que os seus vizinhos a sul; os Ovambo, Hereros e Nhanega-Humbes «os mais conservadores» do ponto de vista cultural, embora cultivem cerreais, sobretudo massango, têm uma certa aversão a agricultura e não produzem hortícolas. Nas comunidades junto ao rio Cunene, por exemplo no Xangongo, os Ombanjas (com dificuldade) estão a aprender com os Umbundu cultivar hortícolas, o mesmo acontece em algumas comunidades das Províncias do Leste (Moxico e Kwando Kubango). As populações do Norte (Cabinda, Zaire, Uíge, Lunda Norte) e Centro Norte (Luanda, Bengo, Kwanza Norte, Malangede) de Angola dedicam-se exclusivamente a agricultura de subsistência. Não é comum a pastorícia.  Em todas estas comunidades os Ovimbundu são encarados como indespensáveis – «uma benção» – pois garantem, quer como mestres ou empregados, a segurança alimentar nessas comunidades, através da diversificação de culturas e utilização de tecnologias apropriadas (gado de tracção, técnicas de irrigação, estrumação, etc.).   É  claro que, a semelhança de todos os povos,  os Ovimbundu também têm os seus dilemas. Tenho observado que a alma Ovimbundu é essencialmente humilde, e tende a valorizar mais a bondade e a inteligência do que a malvadez e a esperteza (astúcia). O problema é que  tanto a humildade como a bondade algumas vezes são encaradas como virtude e outras vezes como defeito. Por isso, o Ovimbundu frequentemente é vítima da sua humildade. Todos nós sabemos da estória de «o mano é que sabe». Alguém que trabalhou diligentemente, e quando chega a hora de receber o pagamento pelo trabalho prestado, deixa ao critério do empregador o valor do seu trabalho. Esta característica da «personalidade Ovimbundu« tem as suas vantagens, mas acarreta também muitas inconvenciências. Se o empregador for bom e generoso retribuirá com justiça o trabalho prestado, e o trabalhador conservará o emprego, mas se o empregador for perverso explorará a sua boa fé porque por força do seu temperamento ele (Ovimbundu)  não regateará por mais nem abandonará o emprego. Agora há um outro «falso problema» – Se bem que não gosto de utilizar esta expressão, pós como diz a sabedoria popular: “não existe fumo sem fogo”-  que tem colocado «desnecessáriamente» os ovimbundu em permanente alerta, frente aos povos do norte (o que não é bom para a paz e reconciliação nacional). É o «mito» de que os povos do norte (Kimbundos e Bakongos) humilharam os ovimbun durante o período colonial. Pondo-lhes a trabalhar nas suas fazendas de café, cana-de- açucar e algodão. Há, aqui, um pormenor que frequentemente escapa aos angolanos. Não foram só os ovimbundos que foram humilhados no período colonial. Os Kimbundos e bakongos também. Eu sou da Kissama – um povo conhecido pela sua rebeldia – e sei que muitos dos nossos antepassados foram enviados às ilhas (São Tomé e Principe) de onde não poderiam voltar. O mesmo aconteceu com as outras tribos Kimbundos e Bakongos. Era uma estratégia dos Portugueses – dividir para melhor reinar. E mais ainda instigar o ódeo entre os diferentes povos e fumentar preconceitos. De resto, os Ovimbunu saõ um grande povo. É pena que ainda não se encorporaram  todas as suas contribuições para a construção de uma angolanidade mais auténtica nem se celebram com a devida justiça áquelas que são reconhecidas.   


[1] O termo bantu foi proposto em 1856 por Whilhelm Bleek, um linguista alemão, na Africa do Sul, para se referir a uma grupo de línguas que usam a raiz ntu para dizer pessoa.   

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3 respostas a Sobre os Ovimbundu

  1. A. Sande diz:

    Eu sou na expressão do jornalista João Melo um umbundo “ambaquista” correspondente aos termos “kimbari” em quimbundo e “tchimbali” em umbundo. Quer dizer umbundo que se sente à vontade num clima citadino, cosmopolita ou mais explicitamente um umbundo de Benguela. Concordo com as observações do redactor no que concerne a distribuição geográfica desse povo, a sua facilidade de adaptação a novos ambientes e sobretudo a sua mística em relação ao trabalho e respeito à pessoa humana, tendo-se tornado por via disso não só extremamante férteis ao cristianismo que no fundo já existia em si antes mesmo de o conhecerem e é ponto assente que os umbundos já venceram a fome há bastante tempo mas…~
    O drama dos umbundos começa precisamente nesse mas… porque se como o redactor diz e eu corroboro o imaginário umbundo debate-se com esses dois grandes impecilhos que são um deficit de auto estima ( O célebre o mano é que sabe) e essa humildade que por vezes se confunde com uma certa fuga às responsabilidades, há um outro problema pelo qual os umbundos continuarão a pagar por muito tempo que é interpretação da realidade segundo a sua visão nuclear. O que os torna um tanto ou quanto dogmáticos e de certo modo semelhantes aos árabes; muito difíceis de lidar. Outro problema da cosmovisão umbundo prende-se com o seu despertar para a política que se efectuou basicamente por intermédio das igrejas protestantes e de lideranças cuja experiência com o mundo moderno se resumia ao funcionalismo público colonial. Falta na sua postura política a rebeldia, a irreverência e inconformismo terceiro mundista, uma certa postura guevarista, chegando desse modo a um paradoxo: um subdesenvolvido que cauciona atitudes e compromissos do mundo desenvolvido.
    Isto não invalida que a sua contribuição para o futuro de Angola é vital; no meu entender não há Angola sem os umbundus mas…

    A. Sande

  2. Concordo plenamente com as virtudes enumeradas do povo ovimbubdu, aliás, tudos os angolanos – não hipócritas – reconhecem as potencialidades desse povo, quer do ponto de vista de empenho laboral (em múltiplas atividades económicas), quer do ponto de vista de benevolência ou simpatia (de que toda a gente carece), na convivência social.

  3. procuro saber acerca dos ovimbundo

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