O saco de areia carregado pelos Sans de Angola

san.jpgAcho que Basil Davidson, o escritor Inglês, que segundo Roland Oliver, autor do “The Cambridge history of Africa” é “ o mais ilustre conhecedor da Africa” não esteve em contacto direito com os Sans. Porque senão, certamente observaria que: “o fardo do homen negro” (título de um dos livros de Basil Davidson) não é nada diante do saco de areia carregado pelos Sans, sobretudo, os de Angola.

No mês de Abril estive na Província do Kwando Kubango fazer um levantamento sobre os Sans. O estudo fora encomendado pela ACADIR (Associação de Conservação e Desenvolvimento Integrado Rural), uma ONG nacional sedeada em Menongue, e Terres des Homes (uma ONG Alemã).

Já tinha ouvido falar e lido sobre os Sans. Sabia que eram um povo nómada, caçador e recolector de mel e frutas silvestres. Mas uma coisa é ouvir e ler sobre uma determinada realidade, e outra é entrar em contacto com ela. O que eu vi é arrepianate!…

O caro leitor não imagina o que é abrigar-se (com a familia) debaixo de um arbustro, quando estiver a chover ou “aninhar-se” num tugúrio, na forma de tenda, com menos de 1,5 m de altura, feito de pequenos paus flectidos, amarrados e coberto com cascas de árvores ou trapos de cobertores e panos velhos; como se vê na foto acima. As famílias que vivem nesse tipo de “casotas” alegam que não tem necessidade de construir casotas maiores porque estão temporariamente no local.

san2.jpgsan2.jpgÉ claro que algumas famílias como as da comunidade de Kaymbe san2.jpg(cerca de 105 pessoas) situada na povoação do Tandawe, Comuna do Savate são sedentárias e já praticam a agricultura, e criam galinhas. Disseram-nos que gostariam ter gado bovino e caprino para ajudar na lavoura e aumentar a sua segurança alimentar. Mas não há quem lhes ajude. Por causa disso até já perderam a confiança no governo (um governo que consideram ser dos pretos). E lamantavelmente cada vez que se aproximam às autoridades com um pedido e não são atendidos interpretam isso como um acto de descriminação racial.

O Soba do Tandawe, ao contrário da maioria dos líderes Sans, costumava participar nas reuniões mensais da administração comunal do Savate. Mas por altura do estudo já não o fazia, porque, achava ser uma perda de tempo, já que a administração nunca satisfazia os seus pedidos de apoio a sua comunidade – pediu uma junta de bois): “Vocês, os Nguvas (o mesmo que pretos) não nos ajudam. Eu ia nas reuniões. Pedi boi para nos ajudar na lavra, mas até hoje…Então já não vou mais… Estou a perder tempo. Andar sempre essa distância toda, e depois nada!..” – Palavras de Mindu Ndjeke, soba adjunto de Kaymbi. De Tandawe a Sede de Savate são 50 Kms.

É caso para dar razão a Richard Pakleppa, um cineasta Britânico, que deu o título de “Onde os primeiro são os ultimos” ao filme que fez sobre os Sans da Província da Huíla e do Cunene. O filme foi realizado com base numa pesquisa feita pelo próprio Pakleppa e Américo Kwononoka (um historiador Angolano, actual director do Museu de Antropologia) comissionados pela OCADEC (Organização Cristã de Ajuda ao Desenvolvimento das Comunidades) e Trocaire (uma ONG Irlandesa).

Os Sans são os primeiros habitantes desta porção de terra que hoje se chama Angola. Mas os povos bantus, vindos da Africa Central por volta do Século XIV empurraram-lhes mais para o Sul do Continente (deserto do Kalahari). Porém, Kuando Kubango uma das 18 Províncias de Angola ainda é um dos habitats naturais (preferido) de três sub grupos: os !Xun que habitam na região de Menongue, Cuito Cuanavale e Nankoka, os Ju|hoan que habitam na região do Cuangar e Calai, e os Khwe que vivem na região do Derico e Calai (Mendelson John and Obeid, 2004, p.11) .

san3.jpg Por causa do modu vivendi dos Sans (nomadismo) as crianças não podem frequentar a escola. É raro encontrar um San que sabe ler e escrever. Apenas 3 pessoas das áreas estudadas afirmaram saber ler e escrever (o levantamento foi feito em 6 comunidades nos Municípios de Cuangar e Menongue). Segundo o Vigário geral da Diocese de Menongue, na Missão Católica do Kuvango existem 2 catequistas Sans. O que, juntamente com uma rapariga da comunidade de Kaymbi, que a equipa da pesquisa não encontrou, mas de quem se diz que sabe ler e escrever em Português e Inglês, eleva-se para 6 o número de Sans que sabem ler e escrever. Naturalmente deve haver mais, porém só estes números num universo de cerca de 3.029 pessoas que conseguimos contabilizar são claramente um indicador de que os Sans não têm tido acesso ao ensino por longo tempo!

Mas nem tudo é negativo com os Sans. Nós, “o resto do mundo” julgamos-lhes com base no preconceito. No relatório que escrevi denunciei um dos equívocos mais comuns: a ideia (amplamente difundida) de que os Sans estão em via de extinção!.. Isto parece ser mais um indicador da nossa incapacidade (nós, “o resto do mundo”) de irmos ao seu encontro e procurar saber quantos realmente são? … Acho que os Sans, pelo menos no Kuando Kubango não são tão poucos assim como se ouve dizer e se lê por aí!.. Para minha surpresa (agradável) descobri mais tarde que Mário Mahongo, um San Angolano de Menongue, que vive presentemente na Africa do Sul denunciou esse mesmo erro no livro “On the Bridge of Godbye – The story of South Africa´discarded San soldiers” (Robbins David, 2007, p. 195) … É injusto dizer que eles são “ selvagens”.

Uma das coisas que eu achei interessante nos Sans é que eles têm consciência e orgulho da sua identidade racial e cultural (o que muitos bantus não têm); que procuram conservar (a todo custo) evitando a miscigenação. É por isso que, mesmo as famílias sedentárias preferem viver em comunidades separadas dos bantus, e as nómadas; na floresta fora do alcance dos outros povos (Naganguelas, Tchokwes, Ovimbundus, Mbukushus, Dericos, etc.). Este é sem dúvida o maior dilema que os Sans enfrentam: Como ter acesso aos benefícios da vida moderna – o que segundo eles mesmos reconhecem só é possível com a ajuda dos outros povos – sem no entanto esvaziar a sua identidade racial e cultural?

Por favor ajudem os Sans a tirar sobre os seus ombros “o saco de areia” que carregam a séculos.

Luanda, 27 de Junho de 2007.

Serafim Quintino

5 respostas a O saco de areia carregado pelos Sans de Angola

  1. Gostei do artigo e vou ficar a espera de um sobre os ovimbundu.
    Parabens !!!!

  2. kravin liz diz:

    Eh, estes são parecidos com meus primos no KS. Afinal somos mais proximos que o meu dinheiro na Suiça. Podemos convidá-los para as festividades da dipanda? Pelo menos beberão algumas cucas e nocais ou vc podem dar-lhe ngola? O milho deles está fedonho, pvr mande-lhes uma equipa do PAM para um levantamento nutricional.

  3. Isaias diz:

    Fico muito feliz em saber mais um pouco sobre o assunto, já que sou angolano umbundu. Não tenho nenhum preconceito acerca dos Sans e creio que está na hora de nos levantarmos para algo mais prático em pról do crescimento e melhoria das condições dos mesmos.

    Que viva o povo San!

  4. Procuro minha mãe.Domingas cristina chiparanga ou familia

  5. sole m. diz:

    estoy sorprendida por todo lo que desconoszo y sin embargo existe… deceo la paz del mundo!!

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