O legado da Teresa

Outubro 16, 2019

Faleceu ontem, segunda feira, 14/10/2019, as 7h50m, uma irmã da minha esposa por insuficiência cardíaca. Um exemplo de auto superação e sucesso que merecia constar nos programas de incentivo ao empreendedorismo. Muito cedo (aos 3 anos de idade) Teresa tornou – se órfã de pai. Por força deste infortúnio veio para Luanda viver com o irmão do pai, o pastor António João da ICEA. O amor a primeira vista levou-a, a sair da casa paterna muito cedo e sem a bênção paternal, indo viver com um homem que a abandonou com um filho na mão algum tempo depois. Partiu para outra relação que também não deu certo, mas resultou em mais um filho! Quem sabe terá sido naquela fase em que “comeu o pão que o diabo amassou” é que desenvolveu a maldita doença que a arrancou malogradamente da vida. Porém mesmo diante de tantas adversidades a Teresa não desistiu de lutar pela coisa mais importante para uma mulher, um lar. Vendendo no mercado da BCA conseguiu assegurar para si e seus filhos um tecto… Nestas circunstâncias muitas mulheres decidem dedicar seu amor exclusivamente aos filhos, mas no coração da Teresa que agora traiu-a havia sempre um espaço para um homem por isso juntou os trapos com o “Mano Zé” com quem teve a única menina. Já com a vida estabilizada deu continuidade aos estudos tendo concluído o ensino médio.
A data da sua morte Teresa era dona de uma vivenda que para quem parecia condenada a mendigar o resto da vida é um verdadeiro palácio e um vasto capital social do qual se destacam as colegas da praça – um verdadeiro grupo solidário com um nível de organização que supera qualquer irmandade – e a sociedade de senhoras da sua igreja local.
Além de uma vasta rede de negócios, Teresa era uma mulher de grandes sonhos. Sempre disse que no seu casamento passaria numa limousine, o que veio a ter lugar em 2016 e só não testemunhou o outro grande sonho da sua vida, “todos os filhos formados ” porque a morte roubou-a de todos nós. Mas já trilhou mais de metade do caminho. O primogénito está no último ano do curso de informática no ISUTIC, o segundo é técnico médio de laboratório clínico – já trabalha – e a cassula frequenta o ensino médio. É caso para dizer que o restante é para eles(os filhos) concluírem.
Portanto mais do que a sua imagem é a sua determinação de melhorar as condições materiais da sua vida, o amor aos seus ente queridos e sobretudo a Deus que deve permanecer nos corações de todos que estiveram ligados à ela. Que a sua memória (legado) nunca se apague entre nós!

Viana, 15 de Outubro de 2019.

Serafim Quintino


O legado da Teresa

Outubro 16, 2019

Faleceu ontem, segunda feira, 14/10/2019, as 7h50m, uma irmã da minha esposa por insuficiência cardíaca. Um exemplo de autosuperacão e sucesso que merecia constar nos programas de incentivo ao empreendedorismo. Muito cedo (aos 3 anos de idade) Teresa tornou – se órfã de pai. Por força deste infortúnio veio para Luanda viver com o irmão do pai, o pastor António João da ICEA. O amor a primeira vista levou-a, a sair da casa paterna muito cedo e sem a bênção paternal, indo viver com um homem que a abandonou com um filho na mão algum tempo depois. Partiu para outra relação que também não deu certo, mas resultou em mais um filho! Quem sabe terá sido naquela fase em que “comeu o pão que o diabo amassou” é que desenvolveu a maldita doença que a arrancou malogradamente da vida. Porém mesmo diante de tantas adversidades a Teresa não desistiu de lutar pela coisa mais importante para uma mulher, um lar. Vendendo no mercado da BCA conseguiu assegurar para si e seus filhos um tecto… Nestas circunstâncias muitas mulheres decidem dedicar seu amor exclusivamente aos filhos, mas no coração da Teresa que agora traiu-a havia sempre um espaço para um homem por isso juntou os trapos com o “Mano Zé” com quem teve a única menina. Já com a vida estabilizada deu continuidade aos estudos tendo concluído o ensino médio.
A data da sua morte Teresa era dona de uma vivenda que para quem parecia condenada a mendigar o resto da vida é um verdadeiro palácio e um vasto capital social do qual se destacam as colegas da praça – um verdadeiro grupo solidário com um nível de organização que supera qualquer irmandade – e a sociedade de senhoras da sua igreja local.
Além de uma vasta rede de negócios, Teresa era uma mulher de grandes sonhos. Sempre disse que no seu casamento passaria numa limousine, o que veio a ter lugar em 2016 e só não testemunhou o outro grande sonho da sua vida, “todos os filhos formados ” porque a morte roubou-a de todos nós. Mas já trilhou mais de metade do caminho. O primogénito está no último ano do curso de informática no ISUTIC, o segundo é técnico médio de laboratório clínico – já trabalha – e a cassula frequenta o ensino médio. É caso para dizer que o restante é para eles(os filhos) concluírem.
Mais do que a sua imagem é a sua determinação de melhorar as condições materiais da sua vida, o amor aos seus ente queridos e sobretudo a Deus que deve permanecer nos corações de todos que estiveram ligados à ela. Que a sua memória (legado) nunca se apague entre nós!

Viana, 15 de Outubro de 2019.

Serafim Quintino 


Sobre o IVA

Outubro 11, 2019

O telemóvel tocou, uma, duas, três, quatro vezes… Correndo foi a tempo de atendê-lo, porque não queria ter que retornar a chamada.  

– Espero que seja algo sério. – Pensou.  

– Aló!.. Quem?!  

– Mário?!. Oh, Mário! Que é feito de ti?  

Era um colega do tempo da faculdade lá nos idos anos 90 do século XX.  

– Epa que se passa contigo, pá? Ultimamente andas muito esquisito!  

– Como assim?!  

– Eu tenho acompanhado as tuas publicações no Facebook. Toda a gente está a falar sobre o IVA, mas tu não!  

– Oh, não ligue. Não vejo necessidade disto!  

– Oh, agora eu é que pergunto como assim?! Um assunto destes, de âmbito nacional, não te interessa?! Não estou a reconhecer-te. Sempre foste um grande «debatedor» de ideias. A tua veia política via-se a distância e a olho nu!.. Lembras-te nos tempos da faculdade?! Quando a política era essencialmente concordar ou discordar com Eduardo dos Santos ou Jonas Savimbi.

– Lembro-me,   mas agora para a alegria da minha mãe perdi o interesse pela política, se bem que também não consigo pelo menos até agora satisfazer o desejo mais profundo do coração dela.

– Anh! É verdade a tua mãe. Como é que ela está.  

– Ainda muito bem graça a Deus. Já está acima dos 80 mas ainda produz a sua própria comida! Risos.  

– Gostei desta!  

– Eh! Um dos maiores problemas da humanidade é que muitos não produzem a comida que comem e outros tantos não cuidam da própria saúde! 

Costumo dizer que a minha mãe é das poucas pessoas no mundo que só come comida! Houve um breve silêncio que indicava que não entendeu. – Sim ela só come “capim”! Comer capim – pensou!

– Ela só come folhas, legumes….

–Ah, pois, agora entendi!

– E quem me dera ter o cuidado que ela teve ao longo da vida com a sua saúde!

– E qual é o desejo dela?  

– Tornar-me pastor! Gargalhadas.  

– Com que então ela quer que sejas pastor.  

– Sim.  

– Olha que não é impossível en? Lembras que já foste um ateu do caraças.  

– Sim, claro.  

– A tua adesão à igreja apanhou-nos todos de surpresa. Portanto não me admirarei se um dia ouvir que és pastor.

– Ok. Mas voltando a vaca fria. Que achas do IVA?

– O homem explodiu em gargalhada

– Oh, como é meu?! Que se passa? Estás a rir o quê?

Continuou a rir por mais alguns minutos! Lá conseguiu conter-se e dizer em meio a riso!

– Epa, a sua pergunta fez-me lembrar um certo pastor a quem perguntaram o que achava sobre o combate a corrupção no país? O homem disse que a opinião dele é “o mesmo que andamos a ouvir nas rádios”.

– Portanto…

– Portanto, o que eu acho sobre o IVA é o mesmo que andamos a ouvir nas redes sociais. Gargalhadas.

Caxito, 10 de Outubro de 2019.

Serafim Quintino


A munkunza do Ngana Kaxitu

Outubro 4, 2019

Mana Teresa a procissão já começou. Disse-o pela segunda vez. Lá a mulher de benza ngana conseguiu parar de falar e para tentar ganhar tempo decidiu correr! Quer dizer mexer as mãos e o corpo como quem está a correr porque o seu corpo pesado e curto não o deixava… Vendo o esforço da senhora, alguns meninos batiam as palmas dizendo: corre, corre, corre! Rindo ela desistiu, porque compreendeu que não valia a pena.Quando chegou ao cemitério já o pequeno grupo de senhoras que decidira ir ao evento, maioritariamente devotas, vestidas de luto e alguns homens (contados a dedo) acompanhado por várias crianças atraídas por simples curiosidade estava a passar junto as bombas de combustíveis da Sonangol adjacente a igreja. Não sei qual é a realidade dos outros continentes, mas aqui em África as mulheres aderem mais às religiões, sobretudo as exógenas (cristianismo e islamismo) do que os homens. A maior parte dos homens prefere permanecer nas religiões tradicionais ou frequentar uma igreja ou mesquita, mas sem compromisso! A prova disto é que nenhum parente masculino do finado foi a missa do sétimo dia e não faltou quem tentasse impedir a viúva, as duas filhas e algumas sobrinhas de ir àquela cerimónia!– Deixa lá a cunhada ir a missa pá – disse um dos irmãos do finado.– Mas ela vai a missa fazer o quê?! – Retorquiu outro. – Ela é que é a dona do óbito e vai embora a igreja ouvir as aldrabices do padre!– Oh, pá calme-se. É rápido.– Oh, rápido! Rápido como, se os convidados já estão a chegar!E de facto os convidados já estavam a chegar! Vinha gente de todas as povoações do Dande e arredores: Luanda, Icolo e Bengo, Nambua Ngongo, Pango Aluquém, Bula Tumba, etc., entre Dembos, sobas e sobetas para a última homenagem ao Ngana Kaxitu.O velho Kaxitu havia aderido à igreja por pressão de uma doença prolongada e persuasão de devotas amigas da família que prometeram milagres da Santa Ana caso assistisse as missas. Este é (ainda) o outro problema da maioria dos Africanos hoje: buscar soluções milagrosas ao invés de técnicas; soluções espirituais para problemas físicos.Na verdade Kaxitu era um adorador da Kianda, mas na situação em que se encontrava não custava nada tentar a sorte noutras divindades supostamente mais poderosas! Contudo o esperado milagre não aconteceu. Kaxitu teve mesmo que responder a chamada do Criador. Só não estava claro para os vivos se tinha ido direito ao Céu ou se teve que fazer uma paragenzinha no purgatório. Todavia, a julgar pelas palavras do padre havia, um quase consenso que o homem não tinha condições de ir direito para o Céu. Ele, que segundo as más-línguas era membro da família que fizera o feitiço do Jacaré bangão que pagou imposto as autoridades coloniais Portuguesas.– Muita gente não percebe porque nós os católicos celebramos a missa do sétimo dia. A missa do sétimo dia é uma tradição que tem fundamento nas sagradas escrituras. Há evidências nas escrituras de que algumas pessoas quando partem para a eternidade precisam das orações dos entes queridos vivos para puderem entrar no Céu. E sabendo a vida que o nosso querido velho Kaxitu levava antes de se render a Deus só pode estar a precisar das nossas preces.

Caxito, 4 de Outubro de 2019.

Serafim Quintino


África

Outubro 2, 2019

Já não és tão preta quanto…

Quando te conheci!

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Morar no sonho

Outubro 2, 2019

Vou me mudar para o sonho!
Lá a cidade é limpa,
O ar cheira a flores.A última vez que sonhei,

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Noite de escuridão

Outubro 1, 2019

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Noite sem luz

Setembro 30, 2019

Chegou a sua casinha de adobe que em abono da verdade era muito mais digna do que os casebres da vizinhança de que se acostumaram a chamar de casas. Não havia luz nem nos arredores. As trevas engoliram tudo. Sentiu a pressão da escuridão sobre a alma. Saiu para ver lá longe as luzes da subestação mais próxima – a de Musseque Kapary – cuja energia não se sabe quem consome. No lugar da depressão causada por tamanha pobreza cresceu uma montanha de revolta. Uma revolta condenada a não pegar em armas! Lutar?! P’ra quê? P’ra que lutar quando já se sabe o desfecho? Ganham sempre! Ganharam todas as guerras! Ganharam também todas as eleições! Deixem-lhes espoliar-nos. Merecem. A nossa pobreza é o indicador da riqueza deles!Perdemos as guerras das armas mas não das ideias! Ah, pois é… Este é o consolo! Que adianta ter razão e não ter força?!Nossos antepassados tinham razão porquê as terras eram deles, mas como as suas armas eram fracas perderam as terras por fim a soberania e com ela a dignidade.A vitória das armas é tão preciosa que os teus inimigos depois conseguem fazer-te odiado pelos ex-seguidores e não raras vezes até os próprios filhos biológicos! Não me peçam exemplos porque podem encontrá-los nos anais de todos os povos do mundo. Antes de recuar no tempo e buscar no baú da memória os encantos da noite no tempo em que os tios ainda contavam histórias de makixi a volta da fogueira, a única fonte de luz artificial que até então conhecia, lá na distante terra natal, os seus olhos passaram pela casa do Senhor Paulino, o pai do Ismael Mateus onde havia a luz de um gerador. No Kabungu também havia algumas casotas de adobe iluminadas por geradores. Depois pela casa do tio Sanga, o fundador da área, mas como estava mergulhada na negrura da noite não puderam pousar, indo para os ninhos – um aglomerado de casebres de barro e capim do sobrinho do tio Sanga onde havia uma labareda avermelhada em luta com o vento que vinha das bandas da Ibendua.É interessante notar que de lá para cá não mudou nada!O quê?Nada!Como nada?Não quis admitir que estava a falar sozinho. Ele é do tempo que se dizia que quem fala sozinho é ou está a ficar maluco! Mas parece que agora descobriram que quem fala sozinho é génio!Ah, não liga estou a lembrar a minha infância… Temíamos a noite mas era sem dúvida o período mais agradável sobretudo quando os pais se juntassem numa casa onde tínhamos amigos para o sarau. A noite não é como o dia em que as pessoas têm que ir trabalhar ou estudar e naturalmente isto era fantástico para nós as crianças…Como todo intelectual pobre pegou na caneta, qual caneta, no telemóvel e derramou no aparelhozinho algumas notas sobre a angústia de não poder ter um lugar decente para viver. Não imaginam sequer a humilhação que brota de, por vergonha, não se puder receber em casa nem mesmo parentes.Acendeu uma fogueira de capim porque nem lenha havia nas suas terras comunitárias. A ideia era fazer um compasso de espera até chegar a Lua, mas o fogo consumiu em minutos a palha secada pelo Sol abrasador do Caxito. Afinal era tempo de a Lua tal como a subestação do Musseque Kapary demorar a dar a sua luz.A noite é sagrada porque nela se fazem as coisas mais sagradas da vida: amor, filhos e dormir. Já imaginou se não houvesse noite! Como é que recuperaríamos da fadiga dos esforços do dia?! Não é por acaso que se atribuem poderes especiais (mágicos) aos animais nocturnos. Os antigos diziam que a noite é só para fazer filhos!Ai é? De dia também pode-se fazer estas coisas?!Tens razão, mas quem são os que fazem estas coisas de dia?! Senão os que não trabalham ou os que estão de férias!Bem não é forçosamente assim, mas a intenção (de desencorajar o hábito de fazer estas coisas sobretudo dormir de dia) foi percebida.Só Deus e os próprios pobres sabem o quanto é estressante viver tanta gente, entre filhos sobrinhos e primos em tão reduzido espaço, e quando a noite chega é um show. Debaixo da mesa se torna quarto, os cadeirões (quando existem) se tornam camas, enfim é a balbúrdia, um grande atentado a qualidade de vida e privacidade. As velas e candeeiros de gasóleo porque hoje em dia não sei porque carga d’água o petróleo iluminante já quase não existe são as alternativas dos excluídos.


Maratonas: lixo moral mais espalhado em Angola

Setembro 30, 2019

Caxito, 22 de setembro de 2019.

Era sexta-feira. A luz do sol ainda não tinha acabado de apagar, já o “DJ do Kimbo” preparava as condições para mais uma farra de fim-de-semana. Há anos que tem sido assim. Desde que o DJ Kafrique veio de Luanda que os idosos da aldeia não dormem sossegados.Os amigos abandonaram a última aula para ajudar o Kafrique a montar as colunas e a “rede” de iluminação do recinto.Os carros que passavam ainda não tinham as luzes acesas, só as mulheres e meninas que vendiam legumes nas duas pequenas praças junto a estrada corriam de cima para baixo conforme os carros paravam mais acima ou abaixo cada uma tentando vender, couve, tomate, rama de batata, enfim, num claro sinal de que o dia estava a chegar ao fim. Os automobilistas tinham que baixar ligeiramente os vidros para não virem sua privacidade invadida por duas ou mais mãos de ambos lados da viatura esfregando os produtos na cara de quem baixasse o vidro além de metade do percurso.- Eh, filho nós aqui esses dias quando chega sexta-feira… as vezes, mesmo no meio da semana é assim!.. Que é?!.. Quem vai falar him. Qual coordenador qual quê? Aqui não há quem fala him. Você fala lá para ver que vai te acontecer… São mesmo nossos filhos, mas te ouvem?! Não te ouvem.Entretanto um grupo de raparigas se aproximava ao recinto da dança. Eh! Estás a ver as mulheres deles!.. Estão a vir aí.Mas estas são crianças.Quê? O mano está ver criança aí?! Estas aí são mães. Hoje em dia nesse país criança é só que tem 5 anos (risos).Ai é?Ah, pois! É no nosso tempo que uma mulher de 20 anos se ainda não “migou” não sabia se homem é como?!. hoje… Outra vez risos… Essa peste das maratonas estragou mesmo o país. A minha irmã que anda muito a procura de negócio disse que lá onde vai também é mesmo assim. Há sanzalas que até não tem escola nem Igreja mas tem aparelhagem!Quem começou com isto?! Eu também não sei. Mas parece que são as maratonas do partido que começaram com isto, não é mano?.. É mesmo – continuou! Mas isto não é coisa boa. Os nossos filhos até fogem da escola para ir nessas festas. Nesse dia, no dia da festa as meninas já não fazem jantar. As mães é que fazem! Dizem mesmo que eu não tenho marido nem filhos nessa casa…Mas, olha que as igrejas também estão bem espalhadas en! Sim tem razão há mesmo também muitas igrejas, mas não fazem barulho e as que fazem, fazem de dia e se é a noite é só para umas horas. Agora essas farras começam sexta-feira a noite até segunda de manhã! E não é só aqui. Todas as bwalas. Aqui, Kabungu, Ibendua, Seteka, Sungui, todo lado. É só você vir aqui a noite vai encontrar as sanzalas estão a ferver de barulho! O governo tem que fazer mesmo alguma coisa se não todos os velhos vão morrer de tensão alta! Os velhos estavam a fugir o barulho das cidades para os matos, mas agora assim vamos fazer como?! O governo tem que pôr mão nisso! O interlocutor afastou-se ligeiramente porque enquanto falavam a senhora vestida de “bessa ngana” com uma tira preta na manga do kimomi simbolizando luto foi se aproximando reduzindo a distância entre si a escassos 15 cm…Mana Teresa! Olha a hora! Já vou, stó só ainda a atender esse moço que está a me fazer perguntas sobre a nossa terra!..Filho, esta terra é uma grande terra! Esta Igreja aí, apontando com o dedo é a mais antiga de Angola – mentiu! Onde baptizaram a Dona Ana de Sousa.Quem? D. Ana de Sousa, Rainha Nzing´eeeh!Anh, afinal?!Sim. O menino não sabe isso? Esses dias na escola já não estudam história? – Acrescentou.Percebeu que a pergunta não era propriamente para si, mas para o sistema do ensino.Estuda-se!Então como é que não sabes isso?!.Esta é a terra do Jacaré bangão! Ou também não sabes?A conversa estava já a ficar um pouco aborrecida. Mas ainda não tinha encontrado momento ideal p’ra terminá-la.Mana Tereeeesa!Chamou a atenção outra mulher vestida de luto que estava parada à uns 10 metros. Parecia 2 ou 3 anos mais nova, mas obviamente a cercar os 70 anos.Eua filho tenho que ir temos missa de sétimo dia. O padre já chegou! – rematou Mas estás a ver filho. Essa Terra só está assim porque os grandes que nasceram aqui mandaram lixar! O Bonga é daqui. Os Dias dos Santos – esses Dino Matross, Nandó e outros- são daqui. Mesmo o Agostinho Neto também é ‘mbora mesmo daqui!.. Então, Catete, Cabiri, Funda e Porto Kipiri, Dande, aqui é Dande, não é o mesmo povo? Mas a mãe assim está a falar já política! Oh, meu filho hoje em dia ninguém mais tem medo. Esses nos enganaram. O Savimbi que estávamos a pensar que era o bandido afinal «homem alheio» tinha ‘mbora razão dele! Aha, nun ‘stá ver a cara que os miúdos estão a pôr nos hiaces?! Ah, pois é, jikul’ omesso!

Serafim Quintino


Aula de História

Julho 29, 2019
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No dia 27/07/2019,um grupo de alunos da escola do 1º Ciclo dos Luandos participou numa aula teórica e prática de História orientada por mim (Serafim Quintino).

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